Desembarcamos nossa série na Idade Média, quando a produção e o consumo da cerveja tiveram grande impulso, em boa parte por conta dos mosteiros, onde a cerveja era produzida, melhorada e vendida. Naquela época os mosteiros eram algo como um hotel para viajantes, oferecendo abrigo, comida e bebida a peregrinos.
Nesta época tivemos além dos monges, o surgimento de diversos santos ligados à cerveja, dos quais falaremos ao final da série, como prometido. Quem quiser se adiantar um pouco, pode visitar o endereço eletrônico indicado no capítulo anterior, que nos dá também as indicações para o texto de hoje.
Pois bem, voltando ao assunto. No período da Idade Média se manteve o hábito de produzir cerveja em casa, sendo a tarefa executada em sua maioria por mulheres, haja vista que eram cozinheiras e, portanto tinham a igual responsabilidade de produzir a cerveja.
Lembremos que a cerveja tinha, nessa época e em épocas anteriores, o caráter de alimento líquido. Em certos locais a cerveja se tornou mais popular que a água, tendo em vista as condições de saneamento da Idade Média (lembram de São Arnold de Metz?).
Dentro dos mosteiros iam se desenvolvendo as técnicas de produção, na busca por uma cerveja mais agradável ao paladar e mais nutritiva. A importância da qualidade alimentar da cerveja era algo relevante para os monges, dado que era um produto que os ajudava a passar os difíceis dias de jejum. Existem relatos de que os monges foram autorizados a beber até 5 litros de cerveja por dia, haja vista que durante o período de jejum não se podia alimentar de sólidos, mas não havia proibição do uso de líquidos.
Isso incentivou os monges a produzir mais e melhor cervejas, e até mesmo abrirem pequenas tabernas nos mosteiros, onde se cobrava uma pequena taxa que dava o direito das pessoas provarem ali a cerveja de alta qualidade produzida.
Em termos técnicos, os monges deram uma maior importância ao uso do lúpulo, substância que tornava as cervejas mais frescas devido à sua acidez natural e que, por outro lado, as ajudava a conservar.
Passaram os monges a controlar as doses de malte e lúpulo e a produzir então uma cerveja com pouco álcool para o consumo do dia a dia e outra mais pesada e com maior teor de álcool para as festividades e ocasiões especiais. O sucesso dessa indústria chamou a atenção dos nobres e soberanos, que então passaram a cobrar taxas pesadas sobre a venda da cerveja.
Em certos locais somente se podia produzir e vender cerveja com autorização real, mediante o pagamento de uma certa quantia para se obter tal autorização.
Claro que tamanha ganância levou ao fechamento de inúmeras tabernas de abadias e mosteiros, posto que não foi possível acompanhar as elevadas taxas que lhes eram impostas (alguma semelhança com os dias de hoje, num certo país da América do Sul?).
Os mais antigos conventos a iniciar a produção da cerveja foram:
St. Gallen, na Suíça;
St. Emmeran, na Alemanha, e
Weihenstephan, também na Alemanha, sendo este o primeiro a receber autorização oficial para fabricação e venda da cerveja, em 1040 d.C.
Weihenstephan será abordada de forma mais completa em outro momento da nossa séria, mas já posso adiantar que é a mais antiga cervejaria do mundo ainda em funcionamento.
Apesar das limitações tributárias anteriormente aludidas, a cerveja continuou a ganhar importância na sociedade medieval. Servia como alimento, como forma de pagamento de taxas, moeda de troca entre outras funções tanto social como economicamente relevantes.
Essa importância é facilmente constatável em actos e leis de nobres e reis, que visavam proteger a produção e os rendimentos que daí advinham. Em 1295, o rei Venceslau garantiu à Pilsen Bohemia direitos de produção de um tipo de cerveja, numa área que é hoje ocupada pela República Checa. Em 1489, foi autorizada a criação da primeira associação (guild) de produtores de cerveja - a Brauerei Beck.
A título de curiosidade, com a chegada de Colombo às Américas, este então descobriu que os nativos já produziam uma bebida parecida com a cerveja, cuja matéria prima era o milho, mas seriam os ingleses, em 1548, os responsáveis pela introdução da cerveja neste continente.
Em 1516 passa-se um dos momentos mais importantes da história da produção de cerveja na Alemanha. As guildas bávaras, tentando precaver os seus interesses, pressionaram as autoridades para a criação de uma lei que defendesse a produção de cerveja de qualidade. De facto, utilizavam-se ingredientes muito estranhos para aromatizar as cervejas como, por exemplo, folhas de pinheiro, cerejas silvestres e ervas variadas. Foi assim que o Duque Wilhelm IV da Baviera criou a Reinheitsgebot - lei da pureza - que tornou ilegal o uso de outros ingredientes no fabrico de cerveja que não fossem água, cevada e lúpulo (é de salientar que nesta época ainda não se conhecia e utilizava o fermento).
As exportações cresceram e com isso muitas cidades alemãs passaram a ser famosas, como por exemplo, Bremen, que era importante entreposto na exportação da bebida para Holanda, Inglaterra e Escandinávia. Hamburgo também entrou na lista das famosas por ser o principal produtor da Liga Hanseática (não sei o que era, mas prometo pesquisar futuramente). Ali, por volta de 1500 haviam cerca de 600 produtores independentes. A tal liga exportava até mesmo para a Índia.
Outras duas cidades importantes na produção de cerveja eram Braunschweig e Einbeck. Uma das marcas mais conhecidas da altura e que, por sinal, ainda hoje produz cerveja é a Beck's, criada em 1553.
No decorrer dos séculos XVI e seguintes a cerveja continuou a ganhar importância no quesito exportação, quando novas empresas eram criadas. Porém, para que a produção da cerveja chegasse à era moderna foram necessárias duas invenções:
A máquina a vapor, de James Watt
A refrigeração artificial, de Carl Von Linde
Nessa altura, estava já cientificamente provado que a produção de boa cerveja dependia da existência de determinadas temperaturas. Dado que essas temperaturas ocorriam essencialmente no Inverno, a invenção de von Linde permitiu que se produzisse e consumisse cerveja ao longo de todo o ano.
Novamente teremos uma continuação no texto sobre a história da cerveja. O próximo passo é a cerveja na Era Moderna. Posteriormente trataremos da cerveja no Brasil.
O endereço de pesquisa é o mesmo anterior, www.cervejasdomundo.com.
Observem que há diversas passagens da matéria em negrito, sendo estas cópias ipsis literis do texto original do endereço acima. Toda a matéria foi adaptada do sítio Cervejas do Mundo.
Abraços!!!